Dia das Mães

“Todo dia sinto saudade”

12 Maio 2017 10:53:04

Aline Christina Brehmer
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Foto: MIchele Utech

Um apartamento, dois quartos, um banheiro, uma sala e uma cozinha. Em cada cômodo, é possível ver que há um bichinho de pelúcia ou um brinquedo esperando para serem utilizados novamente – são esses também os vestígios de alegria e conforto para Yara Donatto Arndt, 47 anos. Ao mesmo tempo, a saudade também está presente nos quatro cantos da casa, dia após dia.

Há cinco anos, a vida de Yara tomou um rumo completamente inesperado e indesejado, quando, em um período de cinco meses perdeu suas duas filhas, Talita Arndt, que na época tinha 22 anos, e Ariana Arndt, que tinha 16.

“É difícil, o tempo passa, mas a impressão que dá é que de a qualquer momento elas vão voltar, vão entrar ali pela porta. Hoje, minha razão de viver é meu netinho Pietro, que está com sete anos”, relata a mãe e avó.

“Ela me deixou um presente, meu neto”

Sua filha mais velha, Talita, faleceu no início de 2012 devido a leucemia. Yara diz que apesar de as duas filhas fazerem os exames necessários todos os anos, o câncer de Talita surgiu de uma hora para outro e foi agressivo – em questão de três meses ela descobriu a doença e faleceu.

“Quando ela descobriu o câncer e iniciou tratamento, estava grávida de dois meses. Os médicos sugeriram se ela queria fazer um aborto para dar início às sessões de quimio e radioterapia, mas ela foi firme: ‘Vou levar a gestação até o final’”, relembra Yara. Infelizmente, Talita acabou sofrendo um aborto enquanto ainda enfrentava a doença.

“Tenho meu neto mais velho, o Pietro, ele é um presente que a Talita deixou para mim. Ele é muito parecido com a Talita fisicamente e com a Ariana no gênio, me lembra demais as duas”, ressalta.

Quando fala do neto, Yara não evita sorrir e falar sobre todos os bons momentos que passam juntos. “Ele é a alegria dessa casa aqui. Vejo ele a cada 15 dias e não vejo a hora de ter ele pertinho de novo”, comenta a avó ansiosa, aguardando a próxima sexta-feira em que ficará com o pequeno Pietro.

Apesar de ter apenas dois anos quando sua mãe faleceu, Pietro lembra de Talita e Yara diz que ele pede para ir junto até o cemitério visita-la – e para ver também sua ‘tia Ia’, como chama Ariana. “Sempre levamos flores para elas. Ele era muito paparicado pelas duas”, comenta.

Relembre o caso de Ariana

Ariana estaria completando 21 anos neste ano. Foi em 2012, mas precisamente no dia 22 de junho que Ariana desapareceu. Durante 24 dias, polícia, bombeiros e comunidade se mobilizaram para encontra-la – o que aconteceu no dia 16 de julho, quando seu corpo foi localizado no Rio Benedito, em Timbó.

“Logo na época, testemunhas informaram que a haviam visto discutindo com o Johny Osmar Karsten, que na época era seu namorado – foi a última vez ela foi vista. Desde o início ele foi o principal suspeito, mas sempre alegou não saber o que havia acontecido. Ele foi preso no dia em que o corpo de Ariana foi encontrado”, relembra Yara.

Nos últimos cinco anos, ela não teve nenhum tipo de contato com Johny. Na época do ocorrido, Karsten prestou depoimento, mas segundo a delegada Stela Maris, que estava cuidando do caso, “as informações repassadas eram contraditórias”. No relatório, constavam provas testemunhais e técnicas de que houve homicídio. Diante dos argumentos, o Ministério Público (MP) fez a denúncia, que foi aceita pelo, na época, juiz de direito da Vara Criminal da Comarca de Timbó, Ubaldo Ricardo da Silva Neto.

Em janeiro de 2013, foi realizada uma audiência que durou aproximadamente três horas e meia, foi a segunda sessão – a primeira aconteceu em novembro de 2012 – na qual foram ouvidas sete testemunhas de defesa – incluindo a mãe de Ariana. Após o final da audiência, Karsten recebeu o direito de responder à acusação de homicídio qualificado em liberdade.

Segundo declarou na época o promotor do MP, Alexandre Serratine, o réu havia matado a adolescente por motivo fútil e de forma cruel. Eles namoravam há 10 meses e Johny queria reatar um relacionamento anterior, sendo que a jovem Ariana era um empecilho para o mesmo. O processo tem oito testemunhas de defesa e 14 de acusação.

“Até onde sei, o caso está agora na mesa do juiz e só falta marcar a audiência, porque ele (Johny) vai à júri popular, há provas suficientes contra ele”, diz Yara. Indo à júri popular, Johny pode ser novamente preso.

Um dia após o outro

Em busca de um lugar para recomeçar ou pelo menos sentir algum conforto, Yara se mudou da casa onde vivia com as filhas após perder Ariana. “Morava antes na rua São Paulo e lembro do dia em que dei as roupas delas embora, impossível não lembrar. Depois me mudei para a rua São Bento, mas a Ariana trabalhava lá por perto então as lembranças e a saudade se tornaram ainda mais intensas”, relembra.

Na época, Yara havia sofrido um acidente e a escolha de um novo lugar para morar contou com o apoio da patroa de sua patroa Rubia, que até hoje é uma das principais pessoas responsáveis pelos dias de alívio e conforto que Yara tem.

Atualmente, Yara mora no bairro Pomeranos e diz que a mudança foi um ponto positivo em meio a tantos acontecimentos tristes. “Agradeço muito à minha patroa, ela me ajudou muito e até hoje sei que posso contar com ela, assim como sei que posso sempre contar com minha família e amigos”, ressalta.

Bons momentos que ficaram na memória

“Quando eu chegava em casa elas sempre me pediam, ‘Mãe, como foi seu dia?’”, relembra Yara. Para ela, lembrar das filhas é difícil, mas também é algo que lhe desperta sorrisos, quando lembra da boa convivência que as três tinham. “São coisas que não têm preço, nada nessa vida supera o carinho de um filho”.

Neste domingo, dia 14, será o quinto Dia das Mães de Yara sem a presença das filhas, mas, para ela, ter tido a oportunidade de ser mãe das duas garotas é o que até hoje lhe dá forças. “Graças às minhas filhas hoje sigo em frente, hoje sou avó. A verdade é que a cada ano fica pior, não só no Dia das Mães, também nos aniversários delas, no meu – são datas que sempre comemorávamos juntas, nunca deixamos passar em branco”, comenta.

“Muitos dizem que com o passar do tempo a dor diminui e fica a saudade, mas a verdade é que só piora. Não é só saudade, todas as lembranças doem muito, além do sentimento de injustiça, uma situação que ainda não foi resolvida”, garante Yara.

Em meio a dias difíceis, Yara diz que vez e outra recebe uma visita especial das filhas em seus sonhos. “Elas estão sempre felizes, rindo, alegres, nunca estão tristes quando sonho com elas”.

O último adeus

“Quando perdi a Ariana eu disse ‘Meu Deus, Deus não existe, se Ele existisse não iria tirar minhas duas filhas’. A delegada disse na época para eu não falar isso, que Deus existia sim, caso contrário, eu não iria encontrar a Ariana, porque logo depois que o corpo dela foi encontrado houve enxurrada e se tivéssemos demorado mais um pouco, não iríamos encontrar o corpo dela e seria pior ainda, nunca saberíamos o que aconteceu”, relembra Yara.

Ela diz que o padre Carlão já na época e ainda hoje é uma das pessoas que a ajuda a passar por toda essa situação. Nos mínimos detalhes, ela lembra os últimos momentos em que esteve com Talita, no hospital e também da última vez em que viu Ariana.

“Foi uma semana antes dela desaparecer. Eu não estava aqui, havia viajado para Jaraguá, onde fui fazer uma cirurgia devido aos meus problemas com varizes. Fiquei na casa do meu irmão e Ariana estava com o pai, mas trocávamos mensagens todos os dias”.

Para Yara, um fator que torna a situação ainda mais difícil é o fato de nunca ter tido a chance de se despedir ou ver Ariana novamente. “Quando levaram o corpo dela para o IML, não nos deixaram vê-la. Ela foi enterrada sem que eu pudesse olhar para ela de novo, mas eu queria ter visto ela pela última vez”.

Aprendendo a cada dia como lidar com a saudade – e ainda assim sem saber como reagir às emoções com as quais se confronta diariamente –, Yara deixa uma mensagem para todas as mães e filhos neste domingo. “Que os filhos valorizem suas mães e que as mães também valorizem eles. Só quem perde para saber a falta que faz. A gente tem que continuar vivendo, mas é muito difícil”.


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