Rio Benedito (o silêncio cala)

Por Dr. Pedro Ferreira 18/03/2019 - 14:08 hs

Em minha cidade corre um rio com nome de gente, lugar sagrado que me pede singela reverência sempre que me aproximo. Desde que decido por mim, ele é o ponto de encontro de mim comigo mesmo, é onde rezo. Local público, paisagem turística, espaço conhecido por todos, que me faz achar que apenas eu o vejo como ninguém escuta. Naquilo que a água trás, entre peixes e resíduos, flutua a história de uma voz.

O centro de minha cidade é atravessado pelas águas. Quedas d’água estampam cartões postais e colorem os guias turísticos da região. As fotos dos turistas, que nunca se compararão com as contidas nos guias, mostram aquilo que deve ser ouvido. Os olhos são instrumentos insensíveis à verdade, não querem escutar. A persistência dos encontros de sons na água acostuma as escutas dos nativos e passantes que não a escutam dizer. 

A ponte cinza que aproxima as margens serve de observatório. É um corredor enferrujado que conecta, artificialmente, suas margens. A iluminação não existe, de noite só se vê rio e lua. Tudo que ela sustenta são passos e inscrições dos passantes em sua estrutura. Mais do que firmar caminho, a construção também sustenta nomes e juras de amor talhadas na tinta descascada de seu metal.

As mãos que amaram sobre o rio, enrugaram. Os olhos dos amores jurados talvez nunca tenham se visto amados. Enquanto aqueles que passam continuam passando, o rio se atesta como permanente. Em sua correnteza permanece certo de ser aquilo que segue.

Tenho uma lembrança que não passou, uma alegria que até hoje não encontrei alguém que tenha igual - me banhei nesse trecho de rio. Quando pequeno, talvez por bons modos, essas águas me acolheram carinhosamente. Eu não as irritava, pois não as temia. O medo de escutar não ensurdecia.

Sem camisa, de cueca, nas margens do rio, com pessoas adultas que, em minhas lembranças, são memórias borradas, era apenas eu e ele. Meu corpo em contato com a água que afoga. Meus cabelos molhados por aquilo que faz florescer. Sentado, com a água até a cintura, lembro de nosso encontro.

A correnteza traz histórias que vivi e que nunca contei. Lembranças são recuperadas dos lapsos memorias, mas não mergulho para encontra-las. Suspenso pela mal-amada armação, seguro, escuto. Desassossego. Frustrações. Felicidades. Saudade. Depressão. Nadar é preciso. Era criança travessa e desprovido de quietude.

Fosse eu tão criança quanto era, estaria pairando sobre as águas. Como adulto que sou, resta afundar - perdida a leveza, o corpo fica peso-morto, é casca de ferida. Guardados, no mais profundo, estão os motivos que desconheço e as razões que sinto com desprezível apreço. A profundeza me aceita. O lodo reflete minha face. O rio é ele e ela.

Assim como nosso rio tem seu nome, todo sofrimento possui sua história. As dores são como a força da correnteza que rasga a cidade ao meio e rega nosso vale. Aquilo que dói sempre tem sua razão de doer, não é inútil e nem manhoso, mas real e verdadeiro. Nossa incompreensão não impede a verdade de ser verdadeira, mesmo que a afogue.  

A depressão é sofrimento que desagua sobre nós. É a força que nos leva de arrasto para o mais fundo de nossas tristezas e culpas, esbarrando em lembranças e nos afogando na impossibilidade de desejar. Aos poucos se acumula e transborda como poça d’água com grandeza de rio. A indisposição aguda dos depressivos é feita da falta de lógica que encontram na esperança. É quando nadar e remar contra o fluxo deixa de fazer sentido que o suicida se lança nas águas sem a intenção de retornar.

Famílias caladas dividindo a mesa e faces fechadas cruzando as calçadas são símbolos na identidade de nossa gente. Predominantemente luteranos e católicos, descendentes de alemães e italianos, jovens e adultos, compartilham muros e linguagem – todas e todos costumam dizer muito, usando de pouco. Ao menos é como costuma ser nosso registro no imaginário popular, como gente desapegada do falar de si.

A depressão afoga porque o choro não escoa. A carapaça do homem inflexível e a couraça da mulher conformada não permitem que as lágrimas umedeçam o rosto e abençoem o chão, ambos não dizem sobre si e tão pouco escutam. Então, a depressão se apossa de suas vontades e esperanças enquanto suas vidas afundam. A cultura que tenta nos livrar das fraquezas, nos enfraquece. Quem não sofre seu sofrimento também não se conhece.

Depressão mata porque toda dor é real e legítima, mesmo quando incompreendida. É tempo de acolher os feridos e aliviar os valentes, aceitando que humanos apenas podem viver em humanidade, ou seja, sendo tão gente quanto qualquer outra pessoa. Quando acolhermos nossas incompreensões e tristezas como genuínas, seremos capazes de flutuar nas águas. Até lá, não engarrafe suas lágrimas, nem as de ninguém, deixe brotar.