A vida da “Tia Rita”

Há 22 anos atuando como professora em Timbó, Rita compartilha histórias e momentos que marcaram sua vida para sempre

Por Aline Christina Brehmer 03/05/2019 - 13:50 hs
Foto: Aline Christina Brehmer/Jornal Café Impresso
A vida da “Tia Rita”
Rita Fiamoncini Valcanaia leciona Ciências e Biologia desde os seus 18 anos de idade

“Professora, tenho uma dúvida...” – as reticências dessa frase são preenchidas pelas perguntas mais mirabolantes, inesperadas e surpreendentes possíveis pelos alunos da professora Rita Fiamoncini Valcanaia.

Dos 40 anos da idade, já são 22 que ela dedica às aulas de Ciências e Biologia, criando laços de amizade que vão muito além da convivência em sala de aula.

Diariamente, a professora compartilha as “peripécias” de seus estudantes, que vão desde as perguntas mais inacreditáveis até as respostas mais impensáveis que esperaria ler na hora de corrigir as provas.

No Dia do Trabalho, celebrado nesta semana, profissionais de todas as áreas receberam suas merecidas homenagens pelo serviço prestado. Nesta edição relatamos um pouco da história de Rita e seu método de ensino diferenciado – e quem sabe até mesmo inovador – em sala de aula.

Professora, amiga e conselheira

Rita diz que hoje, olhando para trás, sente muito orgulho de vários estudantes que teve a sorte de conhecer e ensinar. “Tenho uma grande simpatia pelos jovens, eles são cheios de vida e vibração. As crianças então, sempre alegres e animadas. São muitos planos que eles têm e nós, professores, lidamos com o que há de mais importante em suas vidas: seus sonhos”, reflete.

Como uma “mãezona”, que vê muitos dos alunos como “filhos postiços”, Rita carrega as alegrias e também aflições. Ela revela que ao mesmo tempo em que há essa proximidade com os jovens, existe um lado crescente de preocupação.

“São adolescentes de 14 ou 15 anos, às vezes até estudantes que estão concluindo o ensino fundamental e já iniciaram sua vida sexual. Eles abordam alguns temas e dúvidas em sala de aula e a gente conversa sobre isso. É bom saber que confiam em mim, mas ao mesmo tempo não tem como não se preocupar com o rumo que as coisas estão tomando”, desabafa.

Rita diz que no ano passado, em uma escola que leciona, havia oito estudantes (que cursavam ou o 1º ou 2º ano do ensino médio) que estavam grávidas. “São fatos que me obrigam, enquanto professora e amiga, a ter essa proximidade e amizade em sala de aula. Comecei a lecionar quando tinha 18 anos, então acredito que isso influenciou muito na forma como lido com a turma até hoje. Tanto é que até uns dois anos atrás eu não era conhecida como professora, mas sim como Tia Rita”, relembra.

“Queria que esse dia deixasse de existir”, Rita

Seja para vibrar junto nas vitórias, ou chorar nos momentos tristes, Tia Rita sempre esteve presente. No meio de um acervo incontável de lembranças que carrega, as tristes também marcaram sua história.

É emocionada e em meio a muita dificuldade que ela conta, ao mesmo tempo em que revive, um acontecimento que se tornou inesquecível.

Era um dia normal e faltava apenas uma semana para que as aulas terminassem. O calor marcava forte presença, característica própria do mês de dezembro.

O sinal que todos os alunos esperavam tocou: era hora de ir para casa. Rita mora perto da escola e, pouco depois do término da aula, dois alunos seus, do 9º ano do ensino fundamental, passaram de bicicleta por ela.

“Um deles disse brincando: “vamos atropela a Tia Rita”. Eu estava varrendo na calçada. Até pensei em entrar na brincadeira e ameaçar colocar a vassoura na frente deles, mas fiquei com medo que acabassem caindo e se machucando, então desisti”, diz.

Poucos minutos depois, ela ouviu muitas sirenes. Sem controlar as lágrimas, em um misto de saudade e angústia, ela conta que recebeu a pior notícia daquele ano: o aluno que minutos antes havia lhe desejado um bom fim de semana havia sido atropelado e não resistiu aos ferimentos, falecendo em seguida.

“Pensei comigo: e se eu tivesse colocado a vassoura na frente dele? Teria atrasado ele alguns minutos, isso não teria acontecido. É algo que lembro com detalhes até hoje, impossível de esquecer. Queria que esse dia deixasse de existir. Um adolescente cheio de vida e sonhos. Penso que nossa profissão faz com que a gente tenha isso em essência. Acabamos nos cobrando muito quando algo não dá certo, quando os rumos das vidas de alguns dos nossos alunos segue pelo caminho errado”, diz.

Escolhas

Rita também lembra de uns de seus alunos que, infelizmente, hoje cumpre pena no Presídio Regional de Blumenau. “Desde cedo ele apresentava algumas falhas de caráter, como mentir para os pais, e nós aqui cobrávamos muito isso dele. Mas ele era um estudante atento e sempre confiou na gente. Infelizmente, acabou se envolvendo com o tráfico e está preso até hoje”, conta.

Para ela, atualmente o problema que mais aflige famílias não é a questão econômica em si, mas a estrutura familiar. “Se você for criado em um ambiente violento, a tendência de se tornar uma pessoa assim é muito grande. Infelizmente é o que aconteceu nesse caso”, diz.

Em sala de aula, nos dias atuais, Rita desabafa que a depressão tem sido uma das doenças mais “comuns” entre os alunos pré e já adolescentes.

“Isso é apenas para comprovar o quanto ser professor é um desafio, está muito além de ensinar. É saber ouvir, aconselhar e, mesmo que a função da escola não seja educar, por vezes nos vemos fazendo isso de forma automática. A gente não é dono do destino de ninguém, mas sabemos que muitas vezes para alguém que está na sua frente, a forma de orientar é o que faz a diferença”.

Orgulho define

Por outro lado, em maior número, as situações boas e que motivam os professores acontecem todos os dias em sala de aula e também fora dela. “Sinto muita gratidão e orgulho quando me deparo com os alunos que seguiram pelo caminho do bem”, revela.

Seja sendo atendida por um ex-aluno em uma loja, ou por uma estudante na clínica odontológica – ou ainda vendo que a primeira colocação no curso de Medicina da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) foi para uma ex-aluna sua que hoje exerce a função em São Paulo, Rita é só ogulho.

“Sempre falo aos meus “filhos postiços” que não importa qual a profissão que eles sigam: se a decisão envolver amor, será o suficiente. É muito gratificante quando isso acontece”, garante.

A missão de Rita

Rita conta que nesses anos de docência perdeu a conta de quantas vezes se deparou com situações engraçadas, aliviando o clima, por vezes de tensão, em sala de aula.

Mas como toda boa professora, ela também sabe a hora de ser rígida e impor ordem. “É preciso chamar a atenção principalmente por duas causas: as famosas “conversinhas” em sala e o uso do celular, que a escola não permite durante as aulas, e faço isso, faz parte do meu trabalho e dia-a-dia. A intenção é eles pensarem “exageramos, falhamos, conversamos demais. Agora deu, daqui para frente vou fazer diferente””, diz.

Segundo Rita, a escola sempre busca a aproximação da família com o aluno. “Escola sem família e vice-versa não dá certo. As famílias hoje, infelizmente, delegam boa parte do lado emocional sob nossa responsabilidade”, desabafa.

Rita garante que todo o seu trabalho é focado em uma única missão. “A importância disso tudo que faço é para que os alunos saiam daqui mais “humanos” e motivados. Cada vez mais parece que as pessoas são “máquinas” nessa mundo, e é preciso que nunca esqueçam dos seus sonhos e motivações”, avalia.