Ceja: um mundo de oportunidades
Ceja de Timbó atende hoje a 539 alunos nos cursos de alfabetização, ensino fundamental e médio
É quase hora. Faltam poucos minutos para que a professora inicie a aula. Com o caderno de 10 matérias debaixo do braço, sorriso no rosto e disposição de sobra, seu Luiz Gonçalves de Araújo sai de casa rumo à sala de aula.
Ali, no auge dos seus 65 anos, munido de lápis, caneta e borracha, presta atenção a tudo que o professor fala. “Meu maior sonho é aprender a ler e escrever”, conta.
Ele é um dos mais de 20 alunos que frequenta o curso de alfabetização no Centro de Educação de Jovens e Adultos (Ceja) de Timbó, dividindo a sala com pessoas de diversas idades, desde os 20 anos até quem já está chegando nos 70. Araújo é natural de Minas Gerais mas se considera catarinense, já que vive aqui há 44 anos.
Hoje, com os filhos criados e formados, decidiu que era sua vez de estudar. “Antes, quando morava em Minas, não tinha condição de ir pra a escola. Agora que me aposentei, como sempre tive essa vontade, vim pra cá. Ainda não sei ler e escrever direito, mas tenho vontade de ler tudo”, revela o estudante.
E é com essa vontade de ler que seu Luiz se dirige até o Projeto Literário, criado pelos demais estudantes do Centro. Com brilho nos olhos ele escolhe um dos livros e, pouco a pouco, passa a decifrar um novo (e mágico) mundo.
Estreitando laços
O Projeto Literário foi uma iniciativa que contou com a parceria de todos os 539 alunos do Ceja de Timbó. Ali há bancos, estantes e uma geladeira repleta de livros dos mais diversos gêneros onde os alunos, que muitas vezes chegam para a aula direto do trabalho, param para relaxar e ler um pouco antes de entrar na sala.
No Dia Mundial do Livro que foi celebrado nessa semana na terça-feira, dia 23, esses jovens e adultos provam que, assim como nas histórias que leem e compartilham, não existem limites para os sonhos quando a força de vontade é sua guia.
A diretora do Ceja, Clarice de Fátima T. Wormsbecker, explica que ali são ensinados jovens de diversas cidades da região que pelas mais variadas razões precisaram largar os estudos cedo, mas nunca desistiram de um dia retoma-los.
“Nós atendemos turmas nos três turnos. Quem mora fora de Timbó tem em sua própria cidade uma escola que cede espaço para que se possa dar a aula, assim não é necessário que seja feita uma longa locomoção todos os dias, até porque muitos não teriam como vir até Timbó sempre”, explica.
Ali na sede do Centro, no turno da manhã por exemplo, a aula é das 7h30 às 11h30 com um único professor, que aborda uma só disciplina. “Isso cria uma relação mais próxima entre o docentee a turma. Como não excedemos o número de estudantes na sala, se torna mais fácil dar uma atenção melhor para eles também”, comenta.
Ceja é a escolha dos jovens
Na cidade de Indaial, por exemplo, Clarice menciona que a grande maioria dos estudantes que frequenta o Ceja são jovens na faixa dos 15 aos 22 anos. “Alguns até tentaram ir para o ensino regular, mas não se adaptaram, muitas vezes por sofrer bullying de outros alunos. Há muitos jovens que chegam sem saber ler também, se sentem desmotivados. Então nosso trabalho vai além de ensinar isso, afinal, lidamos muito com a parte psicológica e emocional deles também, já que uma coisa está ligada à outra”, diz.
A diretora comenta que grande parte dos estudantes do Ceja não conta com o apoio da família para retornar aos estudos, mas o simples fato de estarem ali por conta e vontade própria é mais que necessário para que alcancem seus objetivos.
“Sempre buscamos trabalhar unindo a teoria com a prática, de forma que eles compreendam como aplicar o que aprenderam no seu dia-a-dia. Após ficar 20 ou até 30 anos longe de uma sala de aula, as pessoas realmente questionam sua capacidade de aprender, mas se surpreendem consigo mesmas da melhor forma possível”, reflete Clarice.
Alunos em destaque
Nesses anos que está à frente da direção do Ceja, Clarice tem marcados na memória e no coração momentos inesquecíveis. A ida ao cinema, por exemplo, está na lista. “Temos muitos alunos aqui que nunca foram. Só de ver a alegria deles nós todos ganhamos o dia”, diz entre risos.
E muitas vezes é ali mesmo, na secretaria, que a própria direção aprende lições valiosas com os estudantes. “Teve uma vez que um rapaz, deveria ter pouco mais de 20 anos, veio se matricular e trouxe a filha pequena junto. Aí ela disse para ele: “pai, temos que comprar seu material e não dá para esquecer da sua lancheira né?”. Aquilo foi muito tocante, todos se emocionaram. O rapaz chegou no Ceja de um jeito e saiu daqui completamente transformado, para melhor, era outra pessoa”, relembra a diretora.
Orgulhosa, Clarice apresenta dados comprovando que os alunos do Ceja de Timbó possuem um exemplar desempenho nas provas do Enem – muitos deles chegando a conseguir bolsas que custeiam 100% do ensino superior.
Assim, como é o caso do seu Luiz, nunca é tarde para (re)começar. “Quem começa na alfabetização depois passa para o ensino fundamental e médio. Em uma média de cinco anos, podendo ser mais ou menos, essa pessoa já tem seu diploma. Milhares de pessoas já se formaram aqui no Ceja e nosso maior sonho é continuar fomentando essas realizações pessoais na vida de cada um”, garante a diretora.





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