Diário de um Menino em Quarentena
Quarentena: dia 53. Quarta-Feira, 06 de maio, Timbó, Santa Catarina, Brasil.
Não está fácil.
Se você tivesse que se apressar, para imediatamente pegar um
trem-bala que estaria vindo a quilômetros por hora e te levaria para qualquer
lugar, sem destino fixo. O que você guardaria em sua mala?
Eu e meus colegas nos deparamos com esta mesma pergunta
outro dia. Pergunta esta, que nada tem de simples. Afinal, em meio a tantas
coisas, tantos objetos, você teria que escolher apenas alguns para caber em uma
mala.
E se esse trem, não fosse qualquer um? E se este, fosse o
trem que te levaria desta vida? Que te transportaria para outro universo, além
da compreensão de um mero garoto de 15 anos.
É difícil decidir isto em horas, dias, quem dirá, decidir
isto em segundos? Eu não sei. Ou, talvez saiba.
Minha flor preferida é o girassol, adoro girassóis, embora
ainda não tenha algum plantado no jardim de casa. É lindo ver como se
comportam, sua rotina, sua disciplina, ver como extraem energia do sol para sobreviver,
são eles os seus principais seguidores. Quando não faz Sol, os girassóis viram
uns para os outros e compartilham sua energia armazenada entre si.
Esta quarentena nos prova o quanto temos mais semelhanças
com girassóis que imaginamos, o ser humano necessita do calor, da energia do
outro para conseguir viver.
Um dia li que as flores são efêmeras. Neste mesmo dia eu
conheci a palavra “efêmera”, que dá significado a tudo que é temporário, curto
de vida.
Um girassol não duraria muito tempo dentro de uma mala, pois
também é efêmero, não há exceções.
Se o humano classificou as flores como efêmeras, significa
que o homem não é? Eu discordo. Embora o humano viva muito mais que flores,
viva muito mais do que já viveu um dia, e que a tecnologia tenda a aumentar
ainda mais nossa duração de vida, o humano é efêmero. Enquanto uma tartaruga de
Galápagos pode viver 150 anos, o tubarão da Groelândia pode viver 400, a Terra
tem aproximadamente 4,5 bilhões de anos de existência, o Universo tem 13,7
bilhões e o humano, vive em média 72 anos.
Consegue enxergar o quanto o humano é ínfimo e efêmero em
comparação com a imensidão do universo? Não há como dizer que o humano é
eterno.
Eterno, são os sentimentos. Os sentimentos que deixamos nos
lugares, que deixamos para as pessoas. Estes sim, durarão para sempre, do
momento em que nascem. Passam por gerações, envelhecem, podem até enfraquecer e
virar história, legado, mas nunca, nunca morrem.
É isso que guardaria em minha mala, os sentimentos, as sensações.
Admito que preferiria muito mais viajar em uma Maria-fumaça
do que em um trem-bala, com o passo mais lento, mais conforto, a brisa soprando
no meu rosto pelas janelas e a apreciação da vista da natureza.
“Apreciar a vista”, algo que precisamos levar mais para
nossas vidas.
Por mais que todo esse caos de pandemia se espalhando pelo
mundo, e quarentena seja torturante e desafiante, é bom parar um pouco, parar,
analisar o que estamos fazendo da nossa vida, sair daquele ritmo e daquela
rotina chata e que ninguém suporta mais, parar para viver, para aprender a
apreciar a vida, nos mantermos fortes e nos planejarmos para quando tudo
acabar. Usar nossa inteligência, para não ficar parado, e mesmo que de casa, movimentar
o mundo.
Em uma antiga fábula grega, é dito que a inteligência é o
maior presente que um deus poderia dar ao humano, a capacidade de aprender e
nos adaptarmos a qualquer tipo de situação, por mais extrema que ela seja,
existe em nós, desde os tempos primitivos.
Temos que agradecer todos os dias por esse incrível
presente.
A inteligência. Ela seria a primeira a guardar em minha
mala.
Guardaria em minha mala também um brinquedo da minha, há tão
pouco tempo passada, infância. Talvez algum animal em miniatura, aqueles de plástico,
esses eram os meus brinquedos preferidos. O guardaria pela nostalgia. Pela
lembrança das verdadeiras amizades, pela lembrança das divertidas brincadeiras,
das cantiga de roda e pela pureza e alegria de ser uma criança.
O amor também seria guardado em minha mala. Ele nos aquece,
nos faz sentir protegidos, nos acolhe. O guardaria em minha mala, pois em
nenhum momento da viagem me sentiria vazio e sozinho.
Guardaria que temos que amar cada instante de nossas vidas,
por mais difícil que ela esteja.
A qualquer momento podemos estar em uma montanha russa
turbinada de emoções inconstantes, na outra, podemos não estar mais aqui, ou
não termos mais alguém que amamos conosco.
Quando minha família lutava por alguém que amava, nós todos
embarcamos nesta montanha russa. Quando um dia essa pessoa, por quem lutávamos,
não abriu mais o os olhos, a montanha russa que estava em disparada, ficou mais
devagar. Estávamos cansados, tristes, abatidos, mas sabíamos que o sofrimento
havia acabado. Sabíamos que o nono não iria querer nos ver depressivos em meio
a esta montanha russa, por isso, desembarcamos.
O que restou, foi saudade.
O planeta está vivendo um momento histórico, será marcado
para sempre nos livros de história. É um momento que precisa ser lembrado,
precisa servir de inspiração aos que virão, precisa ser aviso, precisa servir
de legado, precisa ser poema de que dias melhores sempre chegam e de que dias
piores também.
Quando esse tão esperado dia “melhor”, finalmente chegar,
não vou criar expectativas de que tudo estará bom, mas viverei cada pedaço de
minha vida e irei sonhar, com amor, cada dia que me aguarda.
Guardaria em minha mala, sonhos, pois são os sonhos quem nos
fazem acreditar e ter esperança.
Quando estou em algum palco, seja cantando, declamando,
interpretando, contando, me sinto como um espírito livre, um espírito que se
molda, que se transforma no que quiser, um espirito que viaja pelo mundo da
imaginação, um espírito livre de qualquer forma material. Um lugar onde posso
tecer meu próprio destino, onde posso caminhar por lugares que nunca caminharia,
onde posso sentir todos os sentimentos já sentidos e sentimentos que um dia
alguém sentirá.
A liberdade é uma
sensação que nos melhora, que nos eleva, que nos atiça para o mundo, é uma
sensação que nos faz flutuar, nos traz leveza. Com esta liberdade, eu levito no
palco.
Na minha mala, eu guardaria liberdade.
Inteligência, brinquedo da infância, amor, saudade, lembranças,
sonhos, liberdade, sentimentos, sensações. Eu não guardaria a efemeridade de um
girassol em minha mala. Guardaria sim, a complexidade e a eternidade de sua
sentimental beleza.
Juan L. Bonacolsi, 2020
Sou Juan, tenho 15 anos e moro em Timbó, Santa Catarina.
Este texto nasceu após discussões literárias durante uma aula on-line do Projeto Uni Duni Tê, que está abrigado no VEM – Viva Espaço Multicultural, sob a coordenação de Gilmara Goulart.
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