Diário de um Menino em Quarentena

Quarentena: dia 53. Quarta-Feira, 06 de maio, Timbó, Santa Catarina, Brasil.

Por Juan L. Bonacolsi 20/05/2020 - 17:07 hs

Não está fácil. 

Se você tivesse que se apressar, para imediatamente pegar um trem-bala que estaria vindo a quilômetros por hora e te levaria para qualquer lugar, sem destino fixo. O que você guardaria em sua mala?

Eu e meus colegas nos deparamos com esta mesma pergunta outro dia. Pergunta esta, que nada tem de simples. Afinal, em meio a tantas coisas, tantos objetos, você teria que escolher apenas alguns para caber em uma mala.

E se esse trem, não fosse qualquer um? E se este, fosse o trem que te levaria desta vida? Que te transportaria para outro universo, além da compreensão de um mero garoto de 15 anos.

É difícil decidir isto em horas, dias, quem dirá, decidir isto em segundos? Eu não sei. Ou, talvez saiba.

Minha flor preferida é o girassol, adoro girassóis, embora ainda não tenha algum plantado no jardim de casa. É lindo ver como se comportam, sua rotina, sua disciplina, ver como extraem energia do sol para sobreviver, são eles os seus principais seguidores. Quando não faz Sol, os girassóis viram uns para os outros e compartilham sua energia armazenada entre si.

Esta quarentena nos prova o quanto temos mais semelhanças com girassóis que imaginamos, o ser humano necessita do calor, da energia do outro para conseguir viver.

Um dia li que as flores são efêmeras. Neste mesmo dia eu conheci a palavra “efêmera”, que dá significado a tudo que é temporário, curto de vida.

Um girassol não duraria muito tempo dentro de uma mala, pois também é efêmero, não há exceções.

Se o humano classificou as flores como efêmeras, significa que o homem não é? Eu discordo. Embora o humano viva muito mais que flores, viva muito mais do que já viveu um dia, e que a tecnologia tenda a aumentar ainda mais nossa duração de vida, o humano é efêmero. Enquanto uma tartaruga de Galápagos pode viver 150 anos, o tubarão da Groelândia pode viver 400, a Terra tem aproximadamente 4,5 bilhões de anos de existência, o Universo tem 13,7 bilhões e o humano, vive em média 72 anos.

Consegue enxergar o quanto o humano é ínfimo e efêmero em comparação com a imensidão do universo? Não há como dizer que o humano é eterno.

Eterno, são os sentimentos. Os sentimentos que deixamos nos lugares, que deixamos para as pessoas. Estes sim, durarão para sempre, do momento em que nascem. Passam por gerações, envelhecem, podem até enfraquecer e virar história, legado, mas nunca, nunca morrem.

É isso que guardaria em minha mala, os sentimentos, as sensações.

Admito que preferiria muito mais viajar em uma Maria-fumaça do que em um trem-bala, com o passo mais lento, mais conforto, a brisa soprando no meu rosto pelas janelas e a apreciação da vista da natureza.

“Apreciar a vista”, algo que precisamos levar mais para nossas vidas.

Por mais que todo esse caos de pandemia se espalhando pelo mundo, e quarentena seja torturante e desafiante, é bom parar um pouco, parar, analisar o que estamos fazendo da nossa vida, sair daquele ritmo e daquela rotina chata e que ninguém suporta mais, parar para viver, para aprender a apreciar a vida, nos mantermos fortes e nos planejarmos para quando tudo acabar. Usar nossa inteligência, para não ficar parado, e mesmo que de casa, movimentar o mundo.

Em uma antiga fábula grega, é dito que a inteligência é o maior presente que um deus poderia dar ao humano, a capacidade de aprender e nos adaptarmos a qualquer tipo de situação, por mais extrema que ela seja, existe em nós, desde os tempos primitivos.

Temos que agradecer todos os dias por esse incrível presente.

A inteligência. Ela seria a primeira a guardar em minha mala.

Guardaria em minha mala também um brinquedo da minha, há tão pouco tempo passada, infância. Talvez algum animal em miniatura, aqueles de plástico, esses eram os meus brinquedos preferidos. O guardaria pela nostalgia. Pela lembrança das verdadeiras amizades, pela lembrança das divertidas brincadeiras, das cantiga de roda e pela pureza e alegria de ser uma criança.

O amor também seria guardado em minha mala. Ele nos aquece, nos faz sentir protegidos, nos acolhe. O guardaria em minha mala, pois em nenhum momento da viagem me sentiria vazio e sozinho.

Guardaria que temos que amar cada instante de nossas vidas, por mais difícil que ela esteja.

A qualquer momento podemos estar em uma montanha russa turbinada de emoções inconstantes, na outra, podemos não estar mais aqui, ou não termos mais alguém que amamos conosco.

Quando minha família lutava por alguém que amava, nós todos embarcamos nesta montanha russa. Quando um dia essa pessoa, por quem lutávamos, não abriu mais o os olhos, a montanha russa que estava em disparada, ficou mais devagar. Estávamos cansados, tristes, abatidos, mas sabíamos que o sofrimento havia acabado. Sabíamos que o nono não iria querer nos ver depressivos em meio a esta montanha russa, por isso, desembarcamos.

O que restou, foi saudade.

O planeta está vivendo um momento histórico, será marcado para sempre nos livros de história. É um momento que precisa ser lembrado, precisa servir de inspiração aos que virão, precisa ser aviso, precisa servir de legado, precisa ser poema de que dias melhores sempre chegam e de que dias piores também.

Quando esse tão esperado dia “melhor”, finalmente chegar, não vou criar expectativas de que tudo estará bom, mas viverei cada pedaço de minha vida e irei sonhar, com amor, cada dia que me aguarda.

Guardaria em minha mala, sonhos, pois são os sonhos quem nos fazem acreditar e ter esperança.

Quando estou em algum palco, seja cantando, declamando, interpretando, contando, me sinto como um espírito livre, um espírito que se molda, que se transforma no que quiser, um espirito que viaja pelo mundo da imaginação, um espírito livre de qualquer forma material. Um lugar onde posso tecer meu próprio destino, onde posso caminhar por lugares que nunca caminharia, onde posso sentir todos os sentimentos já sentidos e sentimentos que um dia alguém sentirá.

 A liberdade é uma sensação que nos melhora, que nos eleva, que nos atiça para o mundo, é uma sensação que nos faz flutuar, nos traz leveza. Com esta liberdade, eu levito no palco.

Na minha mala, eu guardaria liberdade.

Inteligência, brinquedo da infância, amor, saudade, lembranças, sonhos, liberdade, sentimentos, sensações. Eu não guardaria a efemeridade de um girassol em minha mala. Guardaria sim, a complexidade e a eternidade de sua sentimental beleza.

Juan L. Bonacolsi, 2020

Sou Juan, tenho 15 anos e moro em Timbó, Santa Catarina.

Este texto nasceu após discussões literárias durante uma aula on-line do Projeto Uni Duni Tê, que está abrigado no VEM – Viva Espaço Multicultural, sob a coordenação de Gilmara Goulart.