Brumadinho: CGU multa Vale em R$ 86 mi com base na Lei Anticorrupção
Mineradora foi responsabilizada por dificultar a fiscalização
Mineradora foi responsabilizada por dificultar a fiscalização
A Controladoria-Geral da União (CGU), órgão federal com
atribuição para realização de auditorias públicas e outras ações de preservação
da integridade da gestão pública, aplicou multa de R$ 86,3 milhões à Vale. Em
decisão publicada nesta segunda-feira (15), a mineradora foi responsabilizada por dificultar a
fiscalização da barragem que se rompeu em Brumadinho (MG) em janeiro de 2019.
A ruptura da estrutura gerou uma avalanche de rejeitos de
mineração, culminando em devastação ambiental e na morte de 270 pessoas.
Dezenas de cidades mineiras da bacia do Rio Paraopeba foram impactadas.
A CGU considerou que a Vale infringiu a Lei Federal 12.846
de 2013, conhecida como Lei Anticorrupção, que no artigo 5º elenca os atos
lesivos à administração pública. A mineradora foi enquadrada em um dos incisos
por "dificultar atividade de investigação ou fiscalização de órgãos,
entidades ou agentes públicos, ou intervir em sua atuação, inclusive no âmbito
das agências reguladoras e dos órgãos de fiscalização do sistema financeiro
nacional".
De acordo a CGU, entre junho e setembro de 2018, a Vale
emitiu declaração que atestava a estabilidade da estrutura. O documento é
obrigatório e deve ser apresentado periodicamente à Agência Nacional de
Mineração (ANM), autarquia responsável por fiscalizar a atividade do setor. Sem
uma declaração positiva, a Vale seria obrigada a paralisar as operações na
barragem. Segundo a decisão, a mineradora deixou de apresentar informações
fidedignas no sistema da ANM.
A elaboração de uma declaração de estabilidade falsa foi
apontada em diversas investigações sobre a tragédia de Brumadinho. Na primeira
etapa do inquérito da Polícia Federal, concluído em setembro de 2019,
foram indiciados funcionários da Vale e da Tüv Süd, consultoria alemã
contratada para avaliar a estabilidade da barragem. Eles foram acusados de
falsidade ideológica e uso de documentos falsos, por ignorar os parâmetros
técnicos adequados e forjar os relatórios de inspeção e a declaração de
estabilidade.
A denúncia do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), que
resultou na ação criminal que atualmente tramita na Justiça
mineira, apontou conluio entre a Vale e a Tüv Süd, que teriam escondido dos
órgãos de controle e da sociedade a real situação da barragem. Relatórios das
comissões parlamentares de inquérito (CPIs) da Assembleia Legislativa de Minas
Gerais, da Câmara dos Deputados e do Senado também indicaram a ocorrência de
manipulação na emissão da declaração de estabilidade.
Em comunicado ao mercado, a Vale anunciou que tomou ciência da decisão. De acordo com a mineradora, a CGU reconheceu que não houve prática de corrupção e nem envolvimento da alta direção, aplicando o valor mínimo da multa previsto na lei. "A Vale discorda da condenação e apresentará nos próximos 10 dias pedido de reconsideração", registra o texto.
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