Lula defende democracia em discurso após diplomação
Vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin, também recebeu o documento
O presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva,
defendeu nesta segunda-feira (12) a democracia e reafirmou o
compromisso de fazer do Brasil um país "mais desenvolvido e mais
justo".
Lula discursou após ser diplomado pelo presidente do
Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Alexandre de Moraes, como candidato
eleito. O vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin, também recebeu o documento.
Após receber o diploma, Lula fez um discurso emocionado em
defesa de democracia e do sistema eleitoral. Segundo o presidente eleito,
durante as eleições, a nação foi "envenenada com mentiras" produzidas
nas redes sociais, semeando "mentira e ódio".
'Quero dizer que muito mais que a cerimônia de diplomação de
um presidente eleito, esta é a celebração da democracia. Poucas vezes na
história recente deste país a democracia esteve tão ameaçada. Poucas vezes na
nossa história a vontade popular foi tão colocada à prova, e teve que vencer
tantos obstáculos para enfim ser ouvida", afirmou.
O presidente eleito também garantiu o compromisso de fazer
um país "mais desenvolvido e justo" durante os quatro anos de seu
mandato".
"Reafirmo hoje que farei todos os esforços
para, juntamente com meu vice Geraldo Alckmin, cumprir o compromisso que assumi
não apenas durante a campanha, mas ao longo de toda uma vida - fazer do
Brasil um país mais desenvolvido e mais justo, com a garantia de dignidade e
qualidade de vida para todos os brasileiros, sobretudo os mais
necessitados", disse.
Ao receber o diploma de eleito pela terceira vez, Lula
lembrou dos questionamentos que recebeu ao longo da vida pública por
não ter diploma universitário.
"Quero agradecer ao povo brasileiro, pela honra de presidir pela terceira vez o Brasil", concluiu.
Diplomação
A diplomação é uma cerimônia organizada pela Justiça
Eleitoral para formalizar a escolha dos eleitos nas eleições e marca do fim do
processo eleitoral. Com o diploma eleitoral em mãos, os eleitos podem tomar
posse no dia 1° de janeiro de 2023.
O TSE é responsável pela diplomação dos candidatos à
Presidência da República. Os deputados, senadores e governadores são diplomados
pelos tribunais regionais eleitorais (TREs) até 19 de dezembro.
Leia a íntegra do discurso:
Em primeiro lugar, quero agradecer ao povo brasileiro, pela
honra de presidir pela terceira vez o Brasil.
Na minha primeira diplomação, em 2002, lembrei da ousadia do
povo brasileiro em conceder – para alguém tantas vezes questionado por não ter
diploma universitário – o diploma de presidente da República.
Reafirmo hoje que farei todos os esforços para, juntamente
com meu vice Geraldo Alckmin, cumprir o compromisso que assumi não apenas
durante a campanha, mas ao longo de toda uma vida: fazer do Brasil um país mais
desenvolvido e mais justo, com a garantia de dignidade e qualidade de vida para
todos os brasileiros, sobretudo os mais necessitados.
Quero dizer que muito mais que a cerimônia de diplomação de
um presidente eleito, esta é a celebração da democracia.
Poucas vezes na história recente deste país a democracia
esteve tão ameaçada.
Poucas vezes na nossa história a vontade popular foi tão
colocada à prova, e teve que vencer tantos obstáculos para enfim ser ouvida.
A democracia não nasce por geração espontânea. Ela precisa
ser semeada, cultivada, cuidada com muito carinho por cada um, a cada dia, para
que a colheita seja generosa para todos.
Mas além de semeada, cultivada e cuidada com muito carinho,
a democracia precisa ser todos os dias defendida daqueles que tentam, a
qualquer custo, sujeitá-la a seus interesses financeiros e ambições de poder.
Felizmente, não faltou quem a defendesse neste momento tão
grave da nossa história.
Além da sabedoria do povo brasileiro, que escolheu o amor em
vez do ódio, a verdade em vez da mentira e a democracia em vez do arbítrio,
quero destacar a coragem do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior
Eleitoral, que enfrentaram toda sorte de ofensas, ameaças e agressões para
fazer valer a soberania do voto popular.
Cumprimento cada ministro e cada ministra do STF e do TSE
pela firmeza na defesa da democracia e da lisura do processo eleitoral nesses
tempos tão difíceis.
A história há de reconhecer sua coerência e fidelidade à Constituição.
Essa não foi uma eleição entre candidatos de partidos
políticos com programas distintos. Foi a disputa entre duas visões de mundo e
de governo.
De um lado, o projeto de reconstrução do país, com ampla
participação popular. De outro lado, um projeto de destruição do país ancorado
no poder econômico e numa indústria de mentiras e calúnias jamais vista ao
longo de nossa história.
Não foram poucas as tentativas de sufocar a voz do povo.
Os inimigos da democracia lançaram dúvidas sobre as urnas eletrônicas, cuja confiabilidade
é reconhecida em todo o mundo.
Ameaçaram as instituições. Criaram obstáculos de última hora
para que eleitores fossem impedidos de chegar a seus locais de votação.
Tentaram comprar o voto dos eleitores, com falsas promessas e dinheiro farto,
desviado do orçamento público.
Intimidaram os mais vulneráveis com ameaças de suspensão de
benefícios, e os trabalhadores com o risco de demissão sumária, caso
contrariassem os interesses de seus empregadores.
Quando se esperava um debate político democrático, a Nação
foi envenenada com mentiras produzidas no submundo das redes sociais.
Eles semearam a mentira e o ódio, e o país colheu uma
violência política que só se viu nas páginas mais tristes da nossa história.
E no entanto, a democracia venceu.
O resultado destas eleições não foi apenas a vitória de um
candidato ou de um partido. Tive o privilégio de ser apoiado por uma frente de
12 partidos no primeiro turno, aos quais se somaram mais dois na segunda etapa.
Uma verdadeira frente ampla contra o autoritarismo, que
hoje, na transição de governo, se amplia para outras legendas, e fortalece o
protagonismo de trabalhadores, empresários, artistas, intelectuais, cientistas
e lideranças dos mais diversos e combativos movimentos populares deste país.
Tenho consciência de que essa frente se formou em torno de
um firme compromisso: a defesa da democracia, que é a origem da minha luta e o
destino do Brasil.
Nestas semanas em que o Gabinete de Transição vem
escrutinando a realidade atual do país, tomamos conhecimento do deliberado
processo de desmonte das políticas públicas e dos instrumentos de
desenvolvimento, levado a cabo por um governo de destruição nacional.
Soma-se a este legado perverso, que recai principalmente
sobre a população mais necessitada, o ataque sistemático às instituições
democráticas.
Mas as ameaças à democracia que enfrentamos e ainda
haveremos de enfrentar não são características exclusivas de nosso país.
A democracia enfrenta um imenso desafio ao redor do planeta,
talvez maior do que no período da Segunda Guerra Mundial.
Na América Latina, na Europa e nos Estados Unidos, os
inimigos da democracia se organizam e se movimentam. Usam e abusam dos
mecanismos de manipulações e mentiras, disponibilizados por plataformas
digitais que atuam de maneira gananciosa e absolutamente irresponsável.
A máquina de ataques à democracia não tem pátria nem
fronteiras.
O combate, portanto, precisa se dar nas trincheiras da
governança global, por meio de tecnologias avançadas e de uma legislação
internacional mais dura e eficiente.
Que fique bem claro: jamais renunciaremos à defesa
intransigente da liberdade de expressão, mas defenderemos até o fim o livre
acesso à informação de qualidade, sem mentiras e manipulações que levam ao ódio
e à violência política.
Nossa missão é fortalecer a democracia – entre nós, no Brasil,
e em nossas relações multilaterais.
A importância do Brasil neste cenário global é inegável, e
foi por esta razão que os olhos do mundo se voltaram para o nosso processo
eleitoral.
Precisamos de instituições fortes e representativas.
Precisamos de harmonia entre os Poderes, com um eficiente sistema de pesos e
contrapesos que iniba aventuras autoritárias.
Precisamos de coragem.
É necessário tirar uma lição deste período recente em nosso
país e dos abusos cometidos no processo eleitoral. Para nunca mais esquecermos.
Para que nunca mais aconteça.
Democracia, por definição, é o governo do povo, por meio da
eleição de seus representantes. Mas precisamos ir além dos dicionários. O povo
quer mais do que simplesmente eleger seus representantes, o povo quer participação
ativa nas decisões de governo.
É preciso entender que democracia é muito mais do que o
direito de se manifestar livremente contra a fome, o desemprego, a falta de
saúde, educação, segurança, moradia. Democracia é ter alimentação de qualidade,
é ter emprego, saúde, educação, segurança, moradia.
Quanto maior a participação popular, maior o entendimento da
necessidade de defender a democracia daqueles que se valem dela como atalho
para chegar ao poder e instaurar o autoritarismo.
A democracia só tem sentido, e será defendida pelo povo, na
medida em que promover, de fato, a igualdade de direitos e oportunidades para
todos e todas, independentemente de classe social, cor, crença religiosa ou
orientação sexual.
É com o compromisso de construir um verdadeiro Estado
democrático, garantir a normalidade institucional e lutar contra todas as
formas de injustiça, que recebo pela terceira vez este diploma de presidente
eleito do Brasil – em nome da liberdade, da dignidade e da felicidade do povo
brasileiro.
Muito obrigado.
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