Presidente do STF vota contra o orçamento secreto
Ministra Rosa Weber considerou esse tipo de emenda inconstitucional
Ministra Rosa Weber considerou esse tipo de emenda inconstitucional
A presidente do
Supremo Tribunal Federal (STF), ministra Rosa Weber, votou nesta quarta-feira
(14) pela inconstitucionalidade das emendas de relator ao Orçamento da União chamadas
RP9, elaborado pelo Congresso Nacional. As emendas são conhecidas como
"orçamento secreto".
Rosa Weber
considerou que esse tipo de emenda é inconstitucional por prejudicar a
distribuição de recursos, o direito de parlamentares de participarem do ajuste
do Orçamento e a sociedade de obter informações sobre a aplicação do
dinheiro.
O julgamento
começou na semana passada, quando foram ouvidas as sustentações orais das
partes envolvidas. Na sessão desta quarta-feira, a ministra, que é relatora das
ações julgadas, proferiu seu voto.
No entendimento da
relatora, os parlamentares têm poder para tratar de questões relacionadas ao
orçamento, mas as medidas não podem servir a "projetos de poder".
"A utilização
indevida das emendas parlamentares para satisfação de interesses eleitorais
representa grave ameaça à consecução de objetivos fundamentais da República,
consistente em promover o desenvolvimento nacional equilibrado e sustentável,
reduzir as desigualdades sociais e regionais e erradicar a pobreza e
marginalização", disse a relatora.
A presidente
destacou que as emendas de relator sempre existiram no Congresso, mas, a partir
de 2019, os valores foram aumentados.
"No exercício
financeiro de 2020, mais de R$ 36 bilhões foram destinados às emendas
parlamentares em geral, dos quais R$ 20 bilhões foram consignados apenas a
emendas do relator. Sozinho, o relator-geral obteve mais recursos do que todos
os demais congressistas, bancadas estaduais e comissões juntos, além de uma
quantia 157% superior a todas as emendas parlamentares do ano anterior
somadas", informou.
Rosa Weber também
citou escândalos envolvendo emendas parlamentares, como os "anões do
orçamento" e a "máfia das ambulâncias" para justificar que
falhas na fiscalização das emendas podem levar a casos de corrupção e falta de
recursos para áreas prioritárias.
"Os fatos
subjacentes ao esquema do orçamento secreto revelam a progressiva tomada do
orçamento público federal por congressistas que compõem a base do governo no
Congresso, pondo o orçamento federal a serviço das prioridades eleitorais e dos
interesses paroquiais dos parlamentares integrantes da coalizão
presidencial", concluiu.
Após o voto da
relatora, o julgamento foi suspenso e será retomado amanhã (15). Mais dez
ministros devem votar.
Entenda
O julgamento é
motivado por quatro ações protocoladas no ano passado pelos partidos Cidadania,
PSB, PSOL e PV. De acordo com as legendas, a adoção desse tipo de emenda,
identificada como RP9, é ilegal e não está prevista na Constituição.
Além disso, os
partidos argumentam que as emendas só podem ser usadas como instrumento técnico
pelo relator do Orçamento para ajustes no projeto da lei orçamentária.
No entanto, segundo
as legendas, as emendas são usadas pelo Executivo federal para cooptar
deputados e senadores a votarem matérias de seu interesse em troca de alocações
diretas para órgãos públicos, sem a identificação dos deputados e senadores que
indicaram a aplicação dos recursos.
Resolução do
Congresso
No início da
sessão, Rosa Weber decidiu manter o julgamento mesmo após o presidente do
Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), ter enviado um ofício ao STF para comunicar
que está em tramitação no Congresso um projeto de resolução para dar mais
transparência às emendas de relator.
A presidente
elogiou a atitude do Congresso, mas disse que a tramitação não impede a
continuação do julgamento.
Pacheco disse ao Supremo que a resolução acaba com a possibilidade de emendas por meio de usuários externos e estabelece outras alterações, como destinação de 50% das emendas para saúde e assistência social, critério de proporcionalidade de distribuição conforme as bancadas e adoção da não impositividade das emendas.
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