A vovó da Avenida
Aos 97 anos, dona Regina Campestrini desfilou pela primeira vez e revela como foi essa experiência
Aos 97 anos, dona Regina Campestrini desfilou pela primeira vez e revela como foi essa experiência
Havia centenas de pessoas dos dois lados da rua. Ali no meio, pelo mesmo trajeto, mais de 60 pelotões desfilaram. Cada um trazia sua história e valor para serem compartilhados com a multidão. Cada pessoa representava um sonho e dividia com os demais a alegria em fazer parte desse momento. Foi ali, em meio a essa mistura de sentimentos, que surgiu a dona Regina Campestrini.
Segurando a placa com os dizeres: “Sou a mais idosa, tenho 97 anos”, ela desfilou de mão dada com mais uma mulher durante todo o trajeto, seguida por outros 21 idosos que vivem no Ancionato Elze Benz, em Timbó.
Dona Regina atraiu a simpatia e fez brotar sorrisos e aplausos de quem a viu. A alegria dela por estar ali era tão visível, com tanta disposição em participar daquilo tudo, que os seus 97 anos foram apenas um detalhe – surpreendente por sinal.
Mas, afinal, quem é a dona Regina? É exatamente isso que a redação do Café Impresso foi descobrir nesta semana, em uma visita especial para a vovó.
O primeiro de muitos
Quando chego no Ancionato, Morgana Kurtz, a diretora do local, me explica que dona Regina pediu cinco minutos para se arrumar antes da entrevista. Passado esse tempo, ela me leva até o quarto onde nossa entrevistada especial mora.
Sou recebida com um sorriso enorme e um abraço, daqueles bem aconchegantes e quentinhos que só uma vovó sabe oferecer. Dona Regina deixou tudo arrumado para me receber: a cama está impecável, a cadeira que ela me oferece para que eu sente está logo ali ao lado, janelas e cortinas abertas e uma felicidade visível.
“Foi a primeira vez na vida que desfilei. Foi tudo muito lindo e emocionante, ainda mais porque meu filho e minha nora estavam lá e me chamaram, aplaudiram. Fiquei com medo que desse chuva, mas só garoou um pouco e deu tudo certo. Foi tudo tão lindo, nunca vou esquecer. Nós aqui do Ancionato não cansamos, poderíamos ter andado até mais tempo”, revela dona Regina.
Segundo Morgana explica, esse foi o primeiro ano que o Ancionato participou do desfile – mas com certeza não será o último. Dona Regina, inclusive, já adianta que ano que vem tem muita vontade de desfilar novamente.
“Se me convidarem, claro que estarei lá, isso se Deus me deixar como estou hoje. Estou muito feliz, tenho saúde, posso andar, me viro sozinha. Durmo e acordo feliz”, comenta ela, a pessoa mais idosa que reside no ancionato.
Uma verdadeira Frida
Com as unhas pintadas de rosa e devidamente trajada, dona Regina no dia 12 de outubro virou uma verdadeira Frida – pela primeira vez na vida. Assim como a última sexta-feira, muitos dias se tornaram lembranças boas em sua vida, mas quando ela começa a contar um pouco de sua história, não contém a emoção relembrando aquele que, sem dúvida, foi o momento mais difícil que já precisou suportar.
“Quando eu tinha 92 anos perdi meu filho mais velho, que tinha 64 anos na época. Até hoje não sei dizer exatamente qual era a doença dele. Tenho ainda mais meu novo, hoje com 67 anos, então perdi uma metade minha, mas é pela outra que eu ainda vivo, é pelo meu filho que faço e faria de tudo. Por isso também que ver ele na Avenida me vendo desfilar foi tão emocionante. Geralmente são os pais que vão assistir os filhos, mas fizemos ao contrário”, comenta dona Regina.
Lembranças e grandes momentos
Após o desfile, dona Regina foi então passar o fim de semana na casa do filho, que mora em uma cidade próxima. No caminho, ela comenta que, por coincidência, acabou passando na frente de sua antiga casa, onde morava antes de vir para o Ancionato – e explica por qual motivo hoje já não sente mais saudade de lá.
“Eu fui casada durante 58 anos e, depois que meu marido partiu, morei sozinha ali 11 anos. Eu adorava, sempre gostei de Timbó e também de Rio dos Cedros, onde nossa família residiu anteriormente. Com respeito e boa vontade, os vizinhos se ajudavam sempre, éramos todos amigos. Mas quando passei pela frente da minha antiga casa e a vi daquele, toda relaxada, não consegui mais sentir saudade do que vivi ali. Os melhores momentos ficam apenas na lembrança e, por isso, carrego eles comigo onde quer que eu vá”, reflete dona Regina.
“Pelo tempo que Deus permitir...”
E como foi o fim de semana dela junto do filho e sua família? Sem dúvida muito bom – inclusive com algo inédito. Pela primeira vez, dona Regina foi no oftalmologista, mas diz que agora perdeu o medo.
“Meu olho esquerdo é muito sensível à claridade ou qualquer tipo de esforço. Amo ler, seja livros ou jornais, mas logo depois começa a correr água, então fui fazer os exames para saber se está tudo bem. Agora espero o resultado”, comenta.
Saúde sempre em primeiro lugar, principalmente tão perto de completar os 98 anos: em janeiro, dona Regina assopra as velinhas mais uma vez e já sabe o que vai pedir.
“O importante é ter Deus. Sempre fomos eu e Ele, é quem me dá força e me faz continuar. Deus sabe a hora de tudo e todos. Vivo feliz pelo tempo que Ele me permitir. Um dia irei reencontrar as pessoas que amo e perdi, mas hoje agradeço por estar aqui vivendo ainda tantos momentos bons perto de pessoas maravilhosas e do meu filho que amo tanto”, garante a vovó da Avenida.
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