Lula diz que não venderá empresas públicas
Presidente quer atrair investimentos privados para novos negócios
O presidente Luiz
Inácio Lula da Silva afirmou, nesta segunda-feira, 24, que não vai privatizar
empresas públicas e quer atrair investimentos em novos negócios no país, em
especial em energias renováveis. Lula está em viagem a Portugal e participou,
nesta segunda-feira, do Fórum Empresarial Portugal-Brasil, em Matosinhos,
região da cidade do Porto.
“No Brasil, nós não
vamos vender empresas públicas. O que nós queremos é convidar os empresários a
fazerem parceria conosco naquilo que a gente precisa criar de novo”, disse em
discurso para cerca de 200 empresários portugueses e brasileiros.
Ele criticou a
privatização de empresas nos últimos governos - como a venda da Eletrobras - e
disse que um presidente precisa atrair capital externo oferecendo credibilidade
e estabilidade política, social e jurídica. “Nos desfizemos de nosso patrimônio
e a qualidade do serviço não melhorou”, reforçou.
Segundo ele, além
das 14 mil obras que estão paralisadas e que devem ser retomadas no país, o
governo está apostando na indústria de hidrogênio verde no Nordeste do país e
na perspectiva de estabelecer parcerias com o mundo todo na construção de
usinas eólicas, de biomassa e energia solar.
“O Brasil quer
construir, definitivamente, políticas de parceria, nós não queremos relações
hegemônicas com ninguém. Não é porque nós somos grandes que temos que ter
hegemonia. Nós queremos construir parcerias com as empresas portuguesas e nós
queremos que os empresários portugueses construam parceria com nossas empresas.
Nós não queremos vender aquilo que já está pronto, nós queremos construir
aquilo que falta fazer”, acrescentou.
Taxa Selic é
criticada
Lula voltou a
criticar o atual patamar da Selic, a taxa básica de juros do Brasil, por
encarecer o crédito e dificultar os investimentos no país. A Selic está no
maior nível desde janeiro de 2017, quando também estava em 13,75% ao ano. No
mês passado, pela quinta vez seguida, o Banco Central não mexeu na taxa, que
permanece nesse nível desde agosto do ano passado.
“A verdade é que um
país capitalista precisa de dinheiro e esse dinheiro tem que circular não
apenas na mão de poucos, na mão de todos. É por isso que eu digo sempre que a
solução do Brasil é a gente voltar a colocar o pobre no orçamento, é a gente garantir
que as pessoas pobres possam participar, porque quando eles [os pobres] virarem
consumidores, eles vão comprar”, disse Lula, explicando que o consumo
impulsiona a atividade econômica e a geração de empregos.
Parceria
O fórum empresarial
é realizado no Centro de Engenharia e Desenvolvimento de Portugal, instituição
que colaborou com a Embraer no projeto do avião cargueiro KC-390 e mantém
parcerias com diversas empresas e entidades brasileiras ligadas à tecnologia e
inovação no Brasil.
Os investimentos
realizados pela Embraer em Portugal, na OGMA Indústria Aeronáutica de Portugal,
e em duas fábricas no Parque Industrial de Évora, alcançam US$ 500 milhões. Um
contrato entre a Embraer e o governo português prevê a entrega de cinco
aeronaves KC-390 à Força Aérea Portuguesa. Uma por ano, a partir de 2023, pelo
montante de 872 milhões de euros.
“O Centro de
Engenharia e Desenvolvimento representa muito bem a cooperação empresarial que
queremos impulsionar com o encontro de hoje, uma cooperação voltada para o
futuro, a tecnologia, as energias renováveis, a mobilidade urbana e a saúde”,
disse Lula.
O presidente
acrescentou que “a prioridade do meu governo é retomar o desenvolvimento e a
inclusão social no país de forma sustentável. A transição ecológica e
energética é também uma oportunidade de fazermos isso com empregos verdes na
área de energia renovável, onde temos imenso potencial solar e eólico e no
reaproveitamento de resíduos e na recuperação de 30 milhões hectares de
pastagem em terra degradadas. Estamos retomando o combate ao desmatamento e
voltamos a prevenir de verdade os crimes ambientais”.
O presidente
destacou ainda que Portugal é a porta de entrada do Brasil na Europa e, por
isso, acredita que as parcerias serão vantajosas para ambos os países. “Nada
melhor que a gente estabelecer uma relação com Portugal e daqui produzir juntos
e de Portugal exportar para outros países europeus, é muito mais fácil, é só
estabelecer essa relação que falta”, disse.
Durante o fórum, a
Apex-Brasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos) e a
Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (Aicep) renovaram
protocolo de entendimento entre as duas entidades de promoção.
Comunidade
brasileira
Atualmente, cerca
de 252 mil brasileiros residem legalmente em Portugal, de acordo com o governo
brasileiro. Isso não contabiliza os brasileiros com nacionalidade portuguesa ou
outra nacionalidade europeia. Segundo estimativas das repartições consulares do
Brasil em Portugal, a comunidade brasileira poderia estar entre 275 mil e 300
mil pessoas.
Entretanto, Lula
afirmou que quer atrair parte dessas pessoas de volta ao Brasil. “Estou feliz
com aqueles que estão aqui porque vieram para trabalhar, vieram aqui para
investir. Aqueles que vieram porque o Brasil não oferece oportunidade, eu quero
levá-los de volta, oferecendo oportunidades”, disse, explicando que pretende
estimular a indústria nacional.
Como exemplo, o
presidente da República lembrou que, entre 2003 e 2010, a indústria naval
brasileira passou de três mil para 82 mil trabalhadores com a construção de
navios para a Petrobras.
“Agora estamos
importando da China coisa que nós sabemos fazer. Nós tínhamos estabelecido no
Brasil que 65% dos componentes desses navios, dos componentes da plataforma,
das sondas, seriam todos produzidos no Brasil. E acabando isso, acabou a
pequena e média empresa, acabaram os pequenos fornecedores, que só para
Petrobras eram quase 65 mil empresas que forneciam”, explicou.
O comércio entre
Brasil e Portugal foi de US$ 5,26 bilhões em 2022, um aumento de 50,8% em
relação ao ano anterior. Portugal é hoje o 17º país que mais importa produtos
do Brasil, e o 45º na lista de países que mais exportam para o Brasil.
O petróleo foi o produto mais vendido para Portugal em 2022, respondendo por 59% do volume total. Produtos agrícolas - soja, milho e outros - responderam por cerca de 20% do total exportado. Os produtos agrícolas portugueses, especialmente azeite e vinho, significaram cerca de 45% das importações feitas pelo Brasil. Já o setor de componentes para aeronaves subiu para 13% do total de produtos importados.
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